A idéia de que morar em edifícios é mais seguro e de que a ameaça de ladrões a condomínios está afastada é uma tese que já não pode ser mais amplamente aceita. Inúmeros prédios têm sido alvo de quadrilhas, principalmente na cidade de São Paulo, tornando-se mais visados quanto mais sofisticados são.
Muitos edifícios, mesmo equipados com sistemas de segurança, como câmeras e cercas eletrificadas, além de outros produtos eletrônicos são vítimas de assaltos. Essa vulnerabilidade se explica pelo fato de as ações de segurança habitualmente utilizadas se resumirem à instalação de equipamentos, sem que haja mudança de hábito dos moradores e empregados.
Segundo José Elias de Godoy, consultor em segurança, a grande maioria dos assaltos a prédios, em São Paulo, ocorre com a entrada dos marginais pela porta da frente do condomínio, ou seja, aproveitando-se das falhas comportamentais e dos procedimentos errados dos funcionários e moradores. Assim, fica claro que a questão da segurança está muito além da mera instalação de equipamentos. Muitas vezes, as medidas de segurança são adequadas, mas ainda assim não são capazes de conter o crime.
Júlio Minoru, técnico de Desenvolvimento Profissional do Senac, entidade que há 10 anos oferece cursos voltados a síndicos, condôminos, porteiros e supervisores de segurança, concorda com Godoy sobre a necessidade de mudar a cultura não só de funcionários, mas dos moradores que, muitas vezes, não cumprem o seu papel como os maiores interessados pela segurança.
Segundo Regina Ramos Blau, consultora de RH na área de segurança de condomínios, todos deveriam levar mais a sério os fatores que englobam o gerenciamento de um edifício, ou seja, o físico, o humano e o administrativo. Regina, do mesmo modo que Godoy e Minoru, enfatiza que o maior facilitador dos assaltos é a falta de treinamento dos funcionários e moradores. A consultora lembra as ocasiões em que entramos no prédio e perguntamos a qualquer pessoa que está aguardando no portão, se ela não quer entrar também.
De acordo com Regina, a segurança envolve muito mais do que o controle da portaria, sendo fundamental recorrer a equipamentos eletrônicos para monitoramento 24 horas de diversas áreas do condomínio.
Assim, além das medidas específicas como, colocação de equipamentos e contratação de guarda patrimonial, é necessário que as pessoas também mudem sua forma de agir. Outra maneira de criar um projeto de segurança eficiente é através do contato do síndico com um consultor especializado no ramo. Um profissional qualificado pode ajudar a detectar pontos fracos e especificar equipamentos mais adequados a cada caso. Na opinião de Godoy, o plano de proteção deve ser personalizado de acordo com as instalações físicas do condomínio.
Carlos Caruso, consultor especializado na área, acredita que a maior vantagem de se contratar um projetista de segurança está no fato de que ele não visa ganhar dinheiro com a venda de equipamentos. Sendo assim, é um profissional isento que fará uma avaliação de riscos e um diagnóstico, além de treinar funcionários e moradores. O consultor faz as recomendações de compra de equipamentos por modelo, tipo de tecnologia e tamanho, não por marca. Dessa maneira, o condomínio pode fazer cotações em vários fornecedores, beneficiando-se dos melhores preços. Mas não se deve esquecer, segundo Caruso, do treinamento dos funcionários para que saibam operar esses equipamentos. Isso é tarefa do consultor, que pode estabelecer determinados intervalos de tempo para reciclar conhecimentos de empregados e treinar outros novos.
De acordo com Lucas Sá, um projeto de segurança é certamente necessário pois nele estarão detalhados os motivos que justificam a necessidade de cada equipamento. Mas ressalta que os parâmetros a serem utilizados devem respeitar o cotidiano do condomínio e a rotina dos moradores deve ser o quanto menos alterada.
Para Caruso, a segurança teria de ser pensada durante a elaboração do projeto arquitetônico, antes do edifício ser construído. Mesmo com todos os problemas de violência atuais, muitos arquitetos ainda não pensam no aspecto segurança mas sim na sauna, no luxo da piscina, etc.
Caruso ressalta ainda que uma das regras ao projetar é pensar no menor custo de operação do condomínio e, na maioria das vezes, isso significa reduzir a necessidade de mão-de-obra. Ele exemplifica: uma guarita avançada, localizada numa altura que permita a ampla visão das entradas da calçada e da garagem, elimina a necessidade de ter dois porteiros, um para cada entrada.
Outro detalhe importante de projeto, quanto à segurança, é pensar em um local específico para entregas feitas no condomínio (encomendas, água mineral, alimentos, etc). Com um lugar disponível para isso (tambor giratório, passa volumes ou uma porta eclusa com dois portões) se diminui o risco de "falsos" entregadores entrarem no prédio.
Mas Godoy acredita que, mesmo com os cuidados relativos a treinamento, equipamentos e projeto arquitetônico, é preciso dar ênfase aos procedimentos preventivos. O consultor, através do treinamento, deve visar a padronização do comportamento dos funcionários, no que diz respeito à segurança, desenvolvendo um programa exclusivo para atingir as expectativas e peculiaridades do prédio, assim como desenvolver palestras e seminários específicos, para despertar a 'cultura de segurança' nas pessoas.
Caruso também recomenda a busca de apoio externo. Um deles é contratar uma empresa de segurança, que faça ronda e que possa chamar a polícia quando um porteiro é rendido e aciona um botão de pânico. Uma outra maneira é quando uma região tem muitos prédios. Neste caso, pode-se estabelecer uma política de colaboração, formando-se uma rede de segurança que envolva os vários porteiros da vizinhança. Eles podem ser treinados pelo consultor a trocar informações relevantes por rádio sobre o movimento na rua.
Para diminuir custos, diante da atual situação de inadimplência nos condomínios, mesmo nos de alto padrão, é possível especificar equipamentos com preços mais em conta, como uma câmera PB em vez de uma em cores. De fato, normalmente, o corte dos gastos afeta a qualidade dos produtos ou serviços adquiridos. No entanto, a economia pode ser um dos parâmetros para a definição de um projeto de segurança. Godoy explica que, às vezes, se especifica equipamentos com menor resolução e menor custo com uma qualidade também inferior, mas que atingem aos objetivos propostos, como por exemplo os equipamentos que fazem um papel ostensivo e preventivo ao mesmo tempo.
Sejam de prevenção ou reativos, os equipamentos de proteção teriam suas funções muito melhor aproveitadas se fosse estabelecida uma cultura de segurança tanto em moradores quanto em funcionários. Com cada um fazendo a sua parte, diminuiríamos os índices sempre altos de violência que todos os dias assustam a população de grandes cidades.
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